A propósito de adormecer e acordar, sempre no mesmo lugar, lembrou-se que acontecia assim, simplesmente.
Senti-lo, dava aos dias uma desmaiada cor barroca. Por isso, no fim de mais um dia, tudo ficava assim, de uma espécie de azul que nos corta por dentro, pensava, enquanto os pensamentos, filtrados pela música, lhe sobravam, sob a forma de efervescências indefinidas.
Ter acordado quase sufocado, de pedaços de palavras partidas misturadas com uns ecos de um silêncio barulhento, bastou. Essa sensação, dava ao desconforto dos seus dias, um toque cruelmente real.
Era uma manhã em que o céu estava partido. Talvez se tenha partido porque ele tinha bebido e dito coisas. Ou talvez não. Talvez fosse apenas um reflexo desconjuntado do acaso. Afinal, eram 5h da manhã e o céu batia-lhe no tecto que lhe fazia companhia.
- Não devias beber! Juntas os pedaços das palavras, partes o céu e dizes coisas que se ouvem longe.
A manhã fez-se manhã e, ele ali parado, defronte de uma banca de laranjas, empinadas piramidalmente.
Observava-as. Estava frio, mas isso não tinha qualquer importância.
Observava-as. A casca de quase todas elas era feita de pequenas concâvo-convexidades, que se repetiam em padrões ordenados. Para cima ou para baixo, para onde os seus olhos olhassem, repetiam-se. Estavam quase todas emudecidas, no esforço do equilíbrio.
Pegou naquela que lhe falava e ouviu-a. Era aquela que lhe dizia: