Depois de um tecto estupidamente branco a cobrir uma noite branca, nenhum o corpo se ergue sem ajuda. O dele não era excepção. Por isso, dos anestésicos à mão… escolheu este.
Podia ser pior!
a.
Depois de um tecto estupidamente branco a cobrir uma noite branca, nenhum o corpo se ergue sem ajuda. O dele não era excepção. Por isso, dos anestésicos à mão… escolheu este.
Podia ser pior!
a.
Ele tinha os sonhos cheios de crostas!
Sabia-o e não fazia nada.
Por inércia ou impossibilidade? Disso, não queria saber. Sabia apenas que… crostas, eram aquelas coisas rugosas, irregulares e hirtas que se lhe colavam sem pedir nada…. sonhos, eram aquelas coisas voláteis, indefinidas e efémeras que lhe preenchiam os dias e as noites.
Porra! Ele gostava de ambos!
a.
Hoje de manhã … 05.10h… antes que um barulho já seu conhecido impedisse qualquer sinal de vida, ela despiu a angústia (por força da vida) e vestiu-se de poesia (por força, igualmente da vida). Escrevinhou.
(…)
Decerto incapaz de sentir, de anestesiada que estava, pensou.
E com o que pensou teceu conjecturas, desejos e contradições.
Decerto involuntariamente, chorou.
E com as lágrimas que caíram, sarou uns aranhões,
alojados perto do sítio onde se pensa que possa estar a alma,
e que teimavam em arder, de forma continuada e persistente.
Decerto, brilhantemente, sorriu.
Para si.
Para a sua sombra projectada.
Para a sua estranheza entranhamente guardada.
Decerto, sentiu o brilho da esperança e o calor afogueado da dor.
Pareceu-lhe que ambos estavam envolvidos numa dança sem fim.
(…)
Agora, na cozinha apenas o barulho da torradeira ensurdecia os seus, ainda, poéticos pensamentos e os desejos a que não se atreveu a chamar nome nenhum. Deixou-os ir.
Apesar de tudo, o seu coração continuou a bater. Ao menos isso!
a.
Há dias cinzentos. Há dias nihilistas. Há dias de merda.
Ela prefere-os nihilistas porque a deixam com a sensação de que é mesmo idiota. Nihilistas e de merda! Isso significa uma atitude contemplativa e passiva de si, dos outros e do mundo.
Ao chegar a casa, descalçou-se e pôs-se a ouvir esta música. Deixou-se por lá ficar por coerência com o desalento e incapacidade de ir (onde quer que fosse). Porra!
a.
Nesse dia, determinado a chegar a uma conclusão com as angústias que lhe preenchiam as noites, sentou-se em frente à janela. O olhar fixou-se no prédio em frente. As mãos estavam sobre os joelhos num gesto de abandono já seu conhecido. Ali se deixou ficar.
Quando o escuro da noite lhe entrou pela janela e já dormente da inércia, ouviu a sua voz de dentro dizer: “insana esta tua forma de viver (ou de ser)”. Suspirou e levantou-se.
O que fez, ainda não bastou. Os seus dias ainda continuariam a ser… the same old shit! Mas…
a.