A força da vida

Hoje de manhã … 05.10h… antes que um barulho já seu conhecido impedisse qualquer sinal de vida, ela despiu a angústia (por força da vida) e vestiu-se de poesia (por força, igualmente da vida). Escrevinhou.

 

(…)

Decerto incapaz de sentir, de anestesiada que estava, pensou.

E com o que pensou teceu conjecturas, desejos e contradições.

 

Decerto involuntariamente, chorou.

E com as lágrimas que caíram, sarou uns aranhões,

alojados perto do sítio onde se pensa que possa estar a alma,

e que teimavam em arder, de forma continuada e persistente.

 

Decerto, brilhantemente, sorriu.

Para si.

Para a sua sombra projectada.

Para a sua estranheza entranhamente guardada.

 

Decerto, sentiu o brilho da esperança e o calor afogueado da dor.

Pareceu-lhe que ambos estavam envolvidos numa dança sem fim.

 

(…)

 

Agora, na cozinha apenas o barulho da torradeira ensurdecia os seus, ainda, poéticos pensamentos e os desejos a que não se atreveu a chamar nome nenhum. Deixou-os ir.

 

Apesar de tudo, o seu coração continuou a bater. Ao menos isso!

 

a.

 

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