Arquivo para Fevereiro, 2010

O sentido do não

Era domingo e estava sol. O pequeno almoço incluiu além do mar, um café com leite, cujo cheiro,  misturado com o da maresia, ainda se sentia no ar.  Muita gente, anónima, vivia com esta banalidade não reparando nem se dando ao incómodo de achar o que quer que fosse sobre ela.

Mas ele não.  Ser domingo, punha-o a ouvir música. Estar sol, a sonhar.

Já o cheiro do café, que tão bem se compatibilizava com o sonhar,  era algo mais dificil de materializar. Evadiu-se do seu corpo e deixou-se ir e, enquanto se deixava ir, bebeu outro.  Tinha-se levantado para o beber de pé, ali, defronte do seu horizonte de vida cuja cor era, cromaticamente falando, apenas ligeiramente diferente  do líquido que tinha à sua frente.

Estar de pé, mudou-lhe a perspectiva e o café, fez o resto. Isso, foi o pretexto que precisava para olhar para tudo aquilo que se reflectia à sua volta e que, graças ao ângulo do sol, se apresentava fateado, em vários planos, mesmo a pedir um trabalho de edição e montagem movidos a cafeína. Não hesitou e pôs-se o ordenar aquilo que era desordem e que tão bem conhecia.  Pensou que, como em tempos tinha aprendido, a edição está diretamente relacionada com o tempo e que editar, lhe levaria pelo menos o dobro. Mesmo assim, multiplicou aquele momento por dois e fez daquele instante uma curta de vida.  

Repentinamente, à passagem de uns fotogramas, perto do lugar onde se pensa que pode estar a alma e, na autenticidade que o instante lhe impunha, percebeu que só conseguia editar aquilo que estava gravado dentro de si. 

Foi isso, que lhe deu a dimensão imensa de que o sentido do não, era o  sim.

a.

Deixe um comentário »

Low cost

Ali, naquele dia, onde tudo se misturava com o medo, o barulho de algo, acordou-a.  Um estranho branco, que não devolvia o eco, era a cor dominante. De forma despojada, olhou à volta.  Era apenas uma espécie de romantismo low cost, nada de importante.

Pensou que os dias podem ser aquilo que se quiser. Como de resto tudo o resto.

a.

Deixe um comentário »

a. e o post

Este post arrisca-se a nunca chegar a sê-lo.

Demais, talvez.

Arrisca-se igualmente a dar visibilidade a nada de nada que faça sentido, mas essa parte, eu depois, no fim, vejo com ele.  Adiante!

Vamos lá então! Vamos alinhar… alinhar? Mas, alinhar, o quê?

Esta pergunta é fácil. Fácil, sim. Fácil, porque não interessa nada se são pensamentos ou migalhas. O que interessa, é que estão alinhados no desalinho. Simplesmente.

Posto isto temos, em toda a largura e extensão do campo de visão, coisas em desalinho. Essas coisas pertencem-me.  Quanto a isso, há um grau de certeza daqueles grandes como o caraças. Pertencem-me e, acomodam-se, aos encontrões, cá dentro. Sinto-as.

São assim coisas , que deixam um rasto, habilmente dissimulado, como se um longo comboio silencioso, ali tivesse passado a voar. São estranhamente brilhantes e parecem-se umas com as outras, tanto que não se distinguem.

Assim sendo, não há nada que possa ser feito com tanto mimetismo. Apenas deixá-las misturarem-se, na esperança de que, se perceba o que eram, quando se vir aquilo em que se tornaram. É mesmo assim, não faz mal.

- Então… o que dizes tu ”ó post”… publicamos isto?

- Pode ser… não nos traz sossego, mas ao menos mantém-nos à tona.

a. [e o post]

Deixe um comentário »

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.