Era domingo e estava sol. O pequeno almoço incluiu além do mar, um café com leite, cujo cheiro, misturado com o da maresia, ainda se sentia no ar. Muita gente, anónima, vivia com esta banalidade não reparando nem se dando ao incómodo de achar o que quer que fosse sobre ela.
Mas ele não. Ser domingo, punha-o a ouvir música. Estar sol, a sonhar.
Já o cheiro do café, que tão bem se compatibilizava com o sonhar, era algo mais dificil de materializar. Evadiu-se do seu corpo e deixou-se ir e, enquanto se deixava ir, bebeu outro. Tinha-se levantado para o beber de pé, ali, defronte do seu horizonte de vida cuja cor era, cromaticamente falando, apenas ligeiramente diferente do líquido que tinha à sua frente.
Estar de pé, mudou-lhe a perspectiva e o café, fez o resto. Isso, foi o pretexto que precisava para olhar para tudo aquilo que se reflectia à sua volta e que, graças ao ângulo do sol, se apresentava fateado, em vários planos, mesmo a pedir um trabalho de edição e montagem movidos a cafeína. Não hesitou e pôs-se o ordenar aquilo que era desordem e que tão bem conhecia. Pensou que, como em tempos tinha aprendido, a edição está diretamente relacionada com o tempo e que editar, lhe levaria pelo menos o dobro. Mesmo assim, multiplicou aquele momento por dois e fez daquele instante uma curta de vida.
Repentinamente, à passagem de uns fotogramas, perto do lugar onde se pensa que pode estar a alma e, na autenticidade que o instante lhe impunha, percebeu que só conseguia editar aquilo que estava gravado dentro de si.
Foi isso, que lhe deu a dimensão imensa de que o sentido do não, era o sim.
a.
