Arquivo para Fevereiro 28, 2010

O sentido do não

Era domingo e estava sol. O pequeno almoço incluiu além do mar, um café com leite, cujo cheiro,  misturado com o da maresia, ainda se sentia no ar.  Muita gente, anónima, vivia com esta banalidade não reparando nem se dando ao incómodo de achar o que quer que fosse sobre ela.

Mas ele não.  Ser domingo, punha-o a ouvir música. Estar sol, a sonhar.

Já o cheiro do café, que tão bem se compatibilizava com o sonhar,  era algo mais dificil de materializar. Evadiu-se do seu corpo e deixou-se ir e, enquanto se deixava ir, bebeu outro.  Tinha-se levantado para o beber de pé, ali, defronte do seu horizonte de vida cuja cor era, cromaticamente falando, apenas ligeiramente diferente  do líquido que tinha à sua frente.

Estar de pé, mudou-lhe a perspectiva e o café, fez o resto. Isso, foi o pretexto que precisava para olhar para tudo aquilo que se reflectia à sua volta e que, graças ao ângulo do sol, se apresentava fateado, em vários planos, mesmo a pedir um trabalho de edição e montagem movidos a cafeína. Não hesitou e pôs-se o ordenar aquilo que era desordem e que tão bem conhecia.  Pensou que, como em tempos tinha aprendido, a edição está diretamente relacionada com o tempo e que editar, lhe levaria pelo menos o dobro. Mesmo assim, multiplicou aquele momento por dois e fez daquele instante uma curta de vida.  

Repentinamente, à passagem de uns fotogramas, perto do lugar onde se pensa que pode estar a alma e, na autenticidade que o instante lhe impunha, percebeu que só conseguia editar aquilo que estava gravado dentro de si. 

Foi isso, que lhe deu a dimensão imensa de que o sentido do não, era o  sim.

a.

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