A propósito de adormecer e acordar, sempre no mesmo lugar, lembrou-se que acontecia assim, simplesmente.
Senti-lo, dava aos dias uma desmaiada cor barroca. Por isso, no fim de mais um dia, tudo ficava assim, de uma espécie de azul que nos corta por dentro, pensava, enquanto os pensamentos, filtrados pela música, lhe sobravam, sob a forma de efervescências indefinidas.
Nem sempre, como naquele dia, olhando para cima, se via um céu quase estupidamente vermelho, em tons de azul escuro.
Isso não impediu que, ele, olhando em frente, de mínimos acessos, avançasse para trás. Para trás e olhando para o lado, onde via desfilar o medo todo lambuzado.
Ele sabia que debaixo da chuva, era preciso ir, dentro do escuro era preciso ver e, do outro lado, do lado lambuzado, era preciso voltar.
A alternativa era rir dos ai’s. Dos dele e dos dela.
Ele, refugiou-se por debaixo das nuvens que adensavam a atmosfera nesse fim de tarde pesado, muito pesado. Era de estar só, fingindo que não estava. Ou talvez apenas da humidade. Nas mãos, o rol dos trambolhões da sua vida, deixavam-lhe uma sensação de aperto.
Fechou os olhos e focalizou o seu entendimento, uma vez mais, nesse aperto. Nem sempre era no peito que o sentia. Às vezes, e agora era uma delas, esse aperto descia-lhe pela garganta agigantando-se quando passava perto do coração e, era precisamente aí que lhe doía mais.
Ela sabia-o. Sabia-o com um aperto a descer-lhe pela garganta. Quando isso acontecia, sentava-se, a ver se passava. Procurava o lugar, algures debaixo de um céu, quase sempre coberto, onde as nuvens fossem mais densas. Sentava-se e esperava. Nunca se percebeu como ela sabia.