Ao sair de casa, ele reparou que havia gotas de água a tombar dos parapeitos. Isso significava que as noites tinham arrefecido e indirectamente que os dias estavam a encurtar. Ele pensou ao de leve: que se lixe, o que é que isso interessa?
Não interessa nada! Mas, lá no fundo ele sabia muito bem que isso significava noites mais longas, angústias mais pesadas e a necessidade de antídotos mais eficazes.
Com a habituação, o seu corpo estava cada vez mais sem vontade e a sua vontade sem corpo. Por isso e por outras porras, o barulho da torradeira seria insuficiente, ele sabia.
Ainda bem que havia obras perto do quarto onde, da janela virada a sul, podia ver as betoneiras e deixar-se ensurdecer pelo seu falar, sincopado e violento. Havia também guindastes por perto. Esses deslizavam no silêncio e ele ainda não tinha conseguido comunicar com eles.
Decerto, haveria de descobrir, não fora ele ser um ser dado a essas coisas da comunicação.
a.
