Debaixo de uma luz quente que não aquecia, ela saltou para dentro de mais um daqueles dias azuis.
Sem que nenhum aperto a fizesse sentir o que quer que fosse, pegou na chávena de um café que tinha arrefecido sob o seu olhar parado. Sem hesitar, pousou-o e foi-se embora, sem que isso lhe parecesse uma coisa idiota. Ela, sim, era-o.
Nesse dia, tudo o que fez, levava uma marca que lhe vinha de dentro… 100% wrong!
Ali, naquele 6º andar de um prédio branco, sujo pelo tempo, era meio-dia e o sol estava escondido. Escondido mesmo, por detrás das nuvens, dos prédios e das vidas.
Ela abriu a janela e debruçou-se. Debruçou-se um pouco mais e parou. No sítio exacto, onde o ar frio fabricado dentro do quarto se misturava com o ar quente da vida lá fora e, no momento preciso, em que isso lhe fez sentido.
Pela cadência da vida na cidade, quase deserta… percebia-se que era domingo. Pela forma como ali estava, quase inerte e desfocalizada… percebia-se que estava triste.
Não soube se foi o abafado do dia ou a tristeza que a activou. Fosse o que fosse, accionou-lhe a acção e fez-lhe eco, lá para os lados de onde se pensa que pode estar a alma.
Disse a si própria:
- Porra! Vai mas é beber um café e fazer-te à vida!
Foi. Atravessou a estrada e entrou no café defronte.
Cansado e dorido, entrou finalmente em casa. As luzes da casa defronte estavam acesas, cheirava a café, ouvia-se a torradeira e um som roufenho, vindo de uma qualquer rádio sintonizada numa frequência moderada.
Meteu a mão no bolso de trás das calças e tirou o bilhete amarrotado que lá tinha guardado nesse dia.
“Os líquenes perspectivam o mundo de forma simples.
Dentro deles, a simbiose faz-se ciclicamente e sem segredos.
Como não são dados a muitas complexidades olham o mundo
Ele acordou como o verbo saber, conjugado no presente, a martelar-lhe na cabeça. Eu sei-Tu sabes-Ele (ela) sabe-Nós sabemos-Vós sabeis-Eles (elas) sabem… que a chuva potencia estados verdadeiramente merdosos!
Isso, mais a desordem em que se encontrava mergulhado, acelerou os sinais eléctricos do seu circuito de vida assustadoramente labirintica. Foi, sob esta tensão de heartbeats, que acendeu o primeiro cigarro da manhã.
Nesse dia, apenas o desejo do cheiro do café da manhã o fez levantar-se enquanto dizia a si próprio aquilo que milhentas outras vezes tinha dito, sem resultado algum.