Acordou e deixou-se ficar. Havia um tecto branco para olhar. À força de nele fixar o olhar, conseguiu ver umas coisas que nos riscam a vida de todos os dias, que fogem de nós e nos aproximam, que nos ignoram e se vão. Coisas que, de ambos os lados, trazem e levam.
Está-se, não estando. Há quem lhes chame comboios.
Dentro de um corpo que ainda era o seu, ela avançava ao lado da linha. De quando em vez, passavam comboios. Quase de forma imperceptível, as suas mãos crispavam-se alguns segundos depois de os sentir. Sentia-os, através do vento, que não desistia, mesmo depois de eles se irem.
Os dias assim, tinham algo de difuso. Algo que surgia e desaparecia, com a luz. Algo que não deixava rasto mas que se sentia, como se fosse um rio subterrâneo à procura de uma foz.
Como quase sempre, aquilo de que mais precisamos, não nos faz falta nenhuma.
Numa estação de comboios poeirenta, onde o zumbido das moscas era o único sinal de que por ali também havia vida, estava eu sentada a olhar. A olhar sem ver. Tudo que havia para ver eu já há muito que conhecia de cor. Aliás era por isso mesmo que eu ali estava. Tinha decidido vir, num dia de chuva forte, enquanto comia a sopa. Depois fui enchendo a mochila, aproveitando todos os espaços vazios. Precisava absolutamente de trazer aquela grande caixa que tinha recebido no Natal, há uns anos atrás. No dia em que consegui que a caixa estivesse, também ela cheia, comprei o bilhete para o dia seguinte. Hoje, sai de manhã, sem comer as mesmas torradas com manteiga de sempre. O cão levantou o focinho e olhou-me, como sempre…