Quando perguntou a si própria porque é que fazia tempo que não acordava com o barulho da torradeira, não se surpreendeu com a resposta. Continuou a invocar a racionalidade e lembrou-se que há coisas que não se esquecem.
Com um punhado de pensamentos em desordem, e com as mãos agarradas a si, saiu de casa.
Sentia um frio colado à pele que o obrigava a mexer-se. Já conhecia aquela sensação de outros tempos. Estava nevoeiro e ele tinha-se obrigado a sair de casa. Aquelas paredes, construídas para o protegerem do frio, começavam a criar-lhe pensamentos disruptivos.
Sentia nas pernas o tecido das calças. Era como que um afago, quando as abria, para dar forma aos passos. Na sua cabeça, sobrepunham-se imagens. A sequência rápida impedia-o de ver o filme. Sabia, no entanto, que era o filme da sua vida e não o conseguia ver. Ia andando. Ai que porra!
Muitas horas e muitos passos depois, voltou. Deu um pontapé na porta e, com este gesto, apaziguou-se. Pouca coisa, para tão grande desordem, pensou. A verdade é que a torradeira tinha-se avariado e isso irritava-o. Isso e não ser capaz. Foi buscar o velho transístor de alta potência que nunca tinha conseguido sintonizar.
Servia, para o efeito. Afinal, estava alinhado com a sua miserável vida!