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Ego a tripar

Acordado, olhava o tecto. Conhecia-lhe  as rugosidades e as manchas. Evitava cuidadosamente nelas fixar os olhos. Não que não fosse capaz, mas porque viver ao de leve, era mais fácil. Parecia, pelo menos.

 

Nessas noites, a solução era, por vezes,  pôr o ego a tripar.

 

a.

 

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O que diz o vento e o ruído

Embriagado pelos seus estados internos, não estava a conseguir.

 

A noite era farta em ruídos. Dos carros, que passavam ao fundo da rua. Essa rua estreita demais para que passassem em maior quantidade mas demasiado larga sempre que por ela tinha que andar. Do vento, que sabendo-o ali, insistia sempre para que olhasse, pelo menos, pela janela e o ouvisse. Dos passos, daqueles que iam e vinham ou que deambulavam apenas.

 

Esses não lhe faziam mal. Acompanhavam-no. Os outros, sim.  

 

Deixou-se estar. Ali, no mundo que era o seu, não o sendo.

 

a.

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Rotinado, emerdado, silenciado

A luz entrou pela noite e destronou-a. Isso fez com que muitos dos seus pensamentos fossem afectados. Silenciou-os. Olhou a cama vazia e desfeita. A luz reflectia a sua sombra no emaranhado dos lençóis. Doeu-lhe olhá-la e saiu do quarto.

 

Outros circuitos da sua vida teriam que ser reactivados:

 

… lavou a cara e sentiu o desconforto de estar vivo.
… olhou fixamente a torradeira e bebeu o primeiro café da manhã.
… deu um pontapé na cadeira e foi-se embora dali.

 

Levou consigo uma pergunta na esperança de conseguir fabricar uma resposta: porque raio era tão dificil falar quando se sabia exactamente o que não dizer?

 

a.

 

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Emerdado

Carregando um rol de coisas, sob a forma de novelo, algures no peito, tirou a chave do bolso das calças, enquanto comprimia os músculos doridos. A luz do candeeiro não fazia face à escuridão. As sombras e as manchas de humidade eram um sinal de criatividade sórdida naquele vão de escada perdido na cidade. Uma nesga de luz esguichou para dentro daquela vida aprisionada naquele quarto. Entrou, e sentou-se, emerdado como de costume!

a.

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