Enquanto os seus olhos se fixavam aleatoriamente num qualquer ponto à sua frente, ia pensando. Não era bem analisar. Sim, porque analisar pode ser a intelectualização do que nos falta viver. Ou a sua construção. E isso doía.
Ser capaz de distinguir, é coisa para levar umas horas. Normalmente, são horas que correm sem pressa, que pesam de escuro e deixam sulcos dispersos.
Não ter sido bem sucedido, nem se distinguir pela sua exemplaridade, afectou-o. Por dentro e por fora. Por isso, e numa lógica de modernidade, pensou que o melhor seria olhar para o futuro.
Fê-lo. Insistiu. E, tendo tempo e vontade e, por causa do mas do outro dia, voltou a olhar de novo. Percebeu que estava utopicamente afectado.
Ela acordou com um zumbido nos ouvidos e um aperto no peito. Porra da angústia! Porque tem ela que se anunciar, assim, logo pela manhã? No fundo a angústia é estupidamente dependente e narcisista q.b. Talvez sejam dois dos seus pontos fracos a atacar um dia destes. Mas para isso é preciso ser capaz de sair do emaranhado por onde anda.
- Um dia destes, fá-lo-ei! Disse-o sem convicção, enquanto olhava para o ar.
Ela sabia que, naquele amanhecer, iria desfazer-se por dentro. Esfarelar-se, melhor dizendo. Sabia como se iria sentir miserável durante aquele dia. Acreditou que podia ser diferente. Desacreditou de seguida. Talvez fosse apenas medo. Ela estava com medo que se fartava. Medo e a certeza de coisa nenhuma. Precisava anestesiar-se.
Deitou-se com lágrimas, enquanto pensava: as coisas atravessam-nos os dias e a vida, é assim mesmo.