Dentro de um corpo que ainda era o seu, ela avançava ao lado da linha. De quando em vez, passavam comboios. Quase de forma imperceptível, as suas mãos crispavam-se alguns segundos depois de os sentir. Sentia-os, através do vento, que não desistia, mesmo depois de eles se irem.
Os dias assim, tinham algo de difuso. Algo que surgia e desaparecia, com a luz. Algo que não deixava rasto mas que se sentia, como se fosse um rio subterrâneo à procura de uma foz.
Como quase sempre, aquilo de que mais precisamos, não nos faz falta nenhuma.
Enquanto os seus olhos se fixavam aleatoriamente num qualquer ponto à sua frente, ia pensando. Não era bem analisar. Sim, porque analisar pode ser a intelectualização do que nos falta viver. Ou a sua construção. E isso doía.
Ser capaz de distinguir, é coisa para levar umas horas. Normalmente, são horas que correm sem pressa, que pesam de escuro e deixam sulcos dispersos.
De tão poderosos, teimavam. Naturalmente, sem que isso fosse estranho. Os pensamentos, esses, iam saltando de neurónio em neurónio. Às vezes sorriam e, a cada vez que o faziam, percebiam mais.
Tranquilizaram-se, sabendo que mais logo, à noitinha, aquela parede branca havia de tentar (uma vez mais) reflectir o que lhes ia na alma.
Onde está, a noite acaba de expulsar o dia. Sem contemplações. Deixa no ar um cheiro a palha seca e a promessa de voltar. Por essa razão, ou qualquer outra, disse a si próprio:
- Um dia destes, até posso estrebuchar com o que sinto, mas por ora, acordo e adormeço conectado com uma torradeira e isso basta-me!