No meio da névoa deixada depois do duche, de repente, viu-se à sua frente. Era ele que ali estava. Olhou-se, sabendo que sim enquanto pensava. Hesitante, sentou-se defronte daquela imagem que era a sua. E ali se deixou ficar, a fingir que pensava. Na verdade, o que estava a fazer era bem mais do que isso.
Aquilo de que me faço não se vê. Porra, e eu não sei?
A luz entrou pela noite e destronou-a. Isso fez com que muitos dos seus pensamentos fossem afectados. Silenciou-os. Olhou a cama vazia e desfeita. A luz reflectia a sua sombra no emaranhado dos lençóis. Doeu-lhe olhá-la e saiu do quarto.
Outros circuitos da sua vida teriam que ser reactivados:
… lavou a cara e sentiu o desconforto de estar vivo.
… olhou fixamente a torradeira e bebeu o primeiro café da manhã.
… deu um pontapé na cadeira e foi-se embora dali.
Levou consigo uma pergunta na esperança de conseguir fabricar uma resposta: porque raio era tão dificil falar quando se sabia exactamente o que não dizer?
Hoje de manhã … 05.10h… antes que um barulho já seu conhecido impedisse qualquer sinal de vida, ela despiu a angústia (por força da vida) e vestiu-se de poesia (por força, igualmente da vida). Escrevinhou.
(…)
Decerto incapaz de sentir, de anestesiada que estava, pensou.
E com o que pensou teceu conjecturas, desejos e contradições.
Decerto involuntariamente, chorou.
E com as lágrimas que caíram, sarou uns aranhões,
alojados perto do sítio onde se pensa que possa estar a alma,
e que teimavam em arder, de forma continuada e persistente.
Decerto, brilhantemente, sorriu.
Para si.
Para a sua sombra projectada.
Para a sua estranheza entranhamente guardada.
Decerto, sentiu o brilho da esperança e o calor afogueado da dor.
Pareceu-lhe que ambos estavam envolvidos numa dança sem fim.
(…)
Agora, na cozinha apenas o barulho da torradeira ensurdecia os seus, ainda, poéticos pensamentos e os desejos a que não se atreveu a chamar nome nenhum. Deixou-os ir.
Apesar de tudo, o seu coração continuou a bater. Ao menos isso!