Na rua, por onde caminhava, havia postes de electricidade cheios de fios, enrolados, enlaçados, caídos. Humanos, pareciam. Ele sentia-se confortado pela envolvente que isso lhe proporcionava. Mas, mesmo assim, era incapaz de lhes dar mais importância do que o estarem simplesmente ali, apenas a ladear-lhe o caminho.
Apesar de tudo, sentia um estranho efeito e isso fazia-lhe mal.
Era uma espécie de alívio, talvez. Feliz, era pedir demais.
Apertando na mão uma outra mão mais pequena, ele saiu à rua. Havia pessoas a cruzarem-se em todas as direcções. Não se olhavam, apenas se cruzavam, sem sequer estremecerem com a proximidade dos pensamentos alheios.
No meio da praça, alguém rodopiava movida pela corrente de ar que existia na baía. Debaixo de umas nuvens escuras e compactas a criança, lambuzada e sorridente, pediu:
Ele acabara de trabalhar e os seus passos cortavam o frio da noite. Pelo passeio, seguia a luz dos candeeiros. Ninguém o conseguia impedir de olhar para as pessoas com quem se cruzava como meras personagens que continuam permanentemente a representar mesmo depois de se afastarem. Nada do que sentia contrastava com a sua natureza sombria como uma lata de azeitonas. Antes pelo contrário.
Muitos passos à frente chegou à casa que a sua miserável vida tinha alugado. Entrou e ligou a torradeira. Não porque tivesse fome ou intenção de fazer torradas. Aquele barulho fazia-lhe simplesmente falta.