Designer de orgãos

Amanheceu, num estado de não-estado. Tinha anoitecido num estado semelhante e isso dava-lhe a noção de quão coerente era. Assim sendo, foi nesse não-estado a tender para coisa nenhuma, que conseguiu mudar de espaço.

Desceu as escadas e as manchas da noite, branca mais uma vez, deram lugar às sombras do dia, sem que, com isso, algo fosse adicionado ao que já sabia. Poderia vir a ser, mas naquele momento, nada mais podia fazer.

Pouco dada às dicotomias e outras coisas, lembrou-se que, as mais das vezes, a crer nos fundamentalistas da prospectiva, o futuro existe. E ela, que lá havia de ser designer de órgãos, ia começar pelos seus próprios.

Pegou na alma e sentou-se a costurar.

a.

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Varrida por ondas (Love e Rayleight)

Geograficamente falando, ela estava debaixo de um céu forrado de algodão, em cima dum cerro, diante do mar.

O mar, esse, era feito de camadas de azul, cheio de reflexos e movimentos vibratórios, concêntricos o mais das vezes.

Filosoficamente falando, ela, pouco versada em descontinuidades, tinha que se entender com os seus pensamentos.

Os pensamentos, esses, não queriam saber e seguiam escrupulosamente trajectórias elípticas, que acabavam sempre da mesma maneira: um cisalhamento altamente destrutivo, que a deixava debaixo, em cima e diante de todos os céus, cerros e mares. 

Temporalmente falando, eram o tempo e o futuro, e o hoje e o amanhã e o tempo e o hoje, e o futuro e o amanhã, o objecto dos seus dias (não exclusivamente daqueles dias, mas também).

Ora, foi precisamente, ao calcular o tempo que os pensamentos, que, repetidamente se deslocavam num plano perpendicular ao céu forrado de algodão, e, que, em movimentos vibratórios chegavam até aqueles dias, precisavam para a cisalhar, que se deu conta de que aquilo que estava a tentar descrever era tal qual as ondas Love e Rayleight, em doses homeopáticas.

Humanamente falando, ali, em cima de um cerro, ela que, nem aplicando o modelo matemático, conseguia dar cabo delas, desfez-se em mar.

a.

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After nights

As manhãs eram feitas das dores que não lhe largavam a alma e por isso as torradas sabiam-lhe a um nada quase transparente. O  ritual da lavagem dos dentes, reflectia cruamente no espelho, o desespero de que eram feitos os seus cinzentos dias.

Valiam-lhe a simetria das paredes brancas que o amparavam e a vontade de aguentar aquilo que não queria sequer demorar-se a pensar.

Naquele dia, sorriu, sem saber o que isso significava, fechou a porta, enquanto abria a janela. Estava sol e havia um cheiro adoçicado no ar. Era quase Maio.

a.

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Os fdp dos domingos

Os domingos, que são dias, são sempre mais do que isso.

São-no, no próprio dia ou em qualquer outro dia em que se pense neles. Por isso, são constantes, coererentes e consistentes, acabando por ser penalizados por isso mesmo.

Acolhem, invariavelmente, com um sorriso complacente,  os resquícios que sobram dos outros dias e as projecções esperançosas nos que hão-de vir e guardam tudo dentro deles e, às vezes,  fazem umas misturas que nos oferecem e que nunca, mas nunca nos ensurdecem. Esmagam-nos apenas.

a.

[… de manhã, numa qualquer praia, desde há muito]

[.. à tarde, numa qualquer vida, desde que se acreditou]

[… à noite, num qualquer nada abafado,  desde que haja vento]

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Les bras de mer

O dia mandou-a levantar-se e ela levantou-se. Era o dia que mandava, como de costume. Não que isso fizesse diferença, já não fazia.

Tantos eram os dias da sua vida que aquele se distinguiu dos demais. Era um dia ali, naquela praia.

Nos outros dias, se estava calor, às vezes saía.  Se não estava, ficava atarefadamente parada a olhar, à espera que a noite acontecesse. Às vezes não era assim, nem era nada. Mas hoje não, era um dia ali, naquela praia.

Os sons pareciam almofadados. Eram suaves e distantes, deixando-lhe assim muito espaço para os seus pensamentos saírem e apanharem sol. Deixou-os à solta, enquanto olhava o banco de areia branca, aqui e ali salpicado de preto por um cão. Ligeiramente inclinado para a esquerda, ali à sua frente a servir de separador entre a foz e o mar. 

A brisa soprava de forma intermitente, surpreendendo-a. Quando isso acontecia, ela apertava as mãos uma na outra, com a força de um abraço e olhava a praia, à sua esquerda.

As horas não tinham como acontecer. Fechou os olhos, ali, naquela praia.

a.

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O poder da metáfora

Hoje, ao pequeno almoço, monologando à frente da torradeira, estática de tão idiota, lembrou-se das histórias que tinha guardadas dentro de si.  Eram de acesso fácil visto estarem naquele compartimento, que num dia de primavera, tinha catalogado como ” Black bird ou o poder da metáfora” e que, todos os dias, abria e fechava várias vezes. Ás vezes, até se perguntava porque o fazia, mas raramente se demorava a pensar na resposta. Era assim, abria-o e fechava-o para o voltar a abrir e a fechar de novo.

Indo a 2/3 do monólogo e a 3 dentadas do fim da torrada, deu consigo a pensar que aquela espécie de campo magnético da incertezas intrínsecas à coisa, podiam ter polaridade contrária à esperada.

Isso acelerou-lhe a mastigação e o coração.  Era domingo.

–  Diz-me lá ó torradeira, tu percebes alguma coisa de magnetismo?

a.

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Desarrumos

Já há uns dias que ela andava a prospectar os dias que aí vinham mas, nem assim, conseguiu saltar-lhes por cima. Havia demasiada desordem de pedaços entre eles. Os pedaços, esses não pareciam importar-se.

Assim sendo, precisava de ir lá, de ir ver. Foi.

Precisamente nesse dia, precisava. E por isso foi.

Entrou naquele armazém cheio de sons onde nada se ouvia por entre o muito que ecoava no ar. O outro lado do aparentemente vazio, parecia tão evidentemente assim, que até se podia pensar que sim.  Isso ou o seu contrário, ela não sabia.

Talvez fosse essa incongruência que quase matava.

a.

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